Uso de computador na escola: um engano?
Quando vi o artigo na FAPESP sobre a pesquisa de desempenho de estudantes nas áreas de português e matemática, relutei muito em publicar na Underlinux. O peso de uma pesquisa feita na UNICAMP sempre é grande e eu estava desconfiada dos resultados. No entando, a Br-Linux e o Dicas-L resolveram publicar a notícia e me sinto, então, obrigada a escrever o que minha experiência acadêmica tem mostrado.
Que experiência é essa? Bom, quem sou eu? Professora da UFMG com doutorado em semiótica pela USP e pós-doutorado em fonética acústica pela UNICAMP, coordenadora de dois projetos acadêmicos que transitam na área de software livre e que participam do FISL desde 2006: o Semiofon (pesquisa sobre fala) e o Texto Livre (grupo de suporte à documentação em software livre).
Trabalho com computador em sala de aula desde 2005, na UFMG. O maior problema enfrentado é que os alunos em sua maioria não sabem usar computador e nem estão familiarizados com a Web. Gasto muito tempo ensinando isso. Mas porque insistir então? Porque os resultados são SEMPRE melhores. O método consiste em diminuir o foco da teoria para colocar na prática. É uma atividade bem ao modo da semiótica, uma teoria que entende a construção dos seus conceitos em via dupla: a teoria precede a análise mas análise pode rever a teoria e reconstruí-la.
O Texto Livre surgiu dessa experiência e do contato com as comunidades de software livre e hoje está bastante avançado na proposição desse método, que procuramos divulgar cada vez mais entre professores da nossa área.
Quanto à pesquisa, fiz questão de ler na íntegra o artigo publicado pelas pesquisadoras da UNICAMP (leia aqui) e constatei alguns pontos importantes:
O computador também é uma ferramenta de trabalho, para produção de conhecimento, por meio de diversos aplicativos, incluindo o programa R (de estatística, excelente programa open source), citado pelas próprias pesquisadoras.
Sendo assim, e para frear meu entusiasmo que encontraria mais mil exemplos, concluo que a abordagem dos resultados é ideológica. As pesquisadoras colocam a questão da ideologia em sua conclusão, e não estão erradas, mas deixam de dizer algo extremamente importante: toda tecnologia pode ser usada construtiva ou destrutivamente (veja-se a energia atômica), portanto tudo depende do preparo de quem fornece o acesso a essa tecnologia, no caso, pais e professores.
Que experiência é essa? Bom, quem sou eu? Professora da UFMG com doutorado em semiótica pela USP e pós-doutorado em fonética acústica pela UNICAMP, coordenadora de dois projetos acadêmicos que transitam na área de software livre e que participam do FISL desde 2006: o Semiofon (pesquisa sobre fala) e o Texto Livre (grupo de suporte à documentação em software livre).
Trabalho com computador em sala de aula desde 2005, na UFMG. O maior problema enfrentado é que os alunos em sua maioria não sabem usar computador e nem estão familiarizados com a Web. Gasto muito tempo ensinando isso. Mas porque insistir então? Porque os resultados são SEMPRE melhores. O método consiste em diminuir o foco da teoria para colocar na prática. É uma atividade bem ao modo da semiótica, uma teoria que entende a construção dos seus conceitos em via dupla: a teoria precede a análise mas análise pode rever a teoria e reconstruí-la.
O Texto Livre surgiu dessa experiência e do contato com as comunidades de software livre e hoje está bastante avançado na proposição desse método, que procuramos divulgar cada vez mais entre professores da nossa área.
Quanto à pesquisa, fiz questão de ler na íntegra o artigo publicado pelas pesquisadoras da UNICAMP (leia aqui) e constatei alguns pontos importantes:
- embora elas considerem que a escolaridade dos pais ou responsáveis pelo aluno possam interferir nos resultados, isso não é, de fato, levado em conta nas análises;
- existem fatores não considerados para a conclusão final, mesmo alguns apontados por elas:
- o fato de que os alunos que mais têm acesso ao computador seriam aqueles que trabalham, portanto misturariam trabalho e estudo, de modo a obter notas menores
- o fato de que o uso de computador para fazer lições sem uma orientação específica dos professores nesse sentido pode realmente ter resultados catastróficos e
- a massiva maioria dos professores no Brasil não possuem formação adequada para trabalhar com computador;
O computador também é uma ferramenta de trabalho, para produção de conhecimento, por meio de diversos aplicativos, incluindo o programa R (de estatística, excelente programa open source), citado pelas próprias pesquisadoras.
Sendo assim, e para frear meu entusiasmo que encontraria mais mil exemplos, concluo que a abordagem dos resultados é ideológica. As pesquisadoras colocam a questão da ideologia em sua conclusão, e não estão erradas, mas deixam de dizer algo extremamente importante: toda tecnologia pode ser usada construtiva ou destrutivamente (veja-se a energia atômica), portanto tudo depende do preparo de quem fornece o acesso a essa tecnologia, no caso, pais e professores.
Total Comments 14
Comentários
-
Posted 15-02-2008 at 12:45 by psy
-
Tenho acompanhado iniciativas de grupos de professores universitários oferencendo cursos de extensão há mais de 25 anos. Desde cursos para professores rurais (na época eu era uma pré-acolescente e acompanhava minha mãe nessas empreitadas) até cursos de linguagem e tecnologia.
Eu tenho certeza que administração faz diferença, mas também acho que fortalecer as iniciativas locais é de extrema importância, principalmente pelas diferenças sociais e culturais que vemos nesse enorme Brasil. Acredito que toda iniciativa governamental vai falir se tratar o Brasil como um todo homogêneo. O governo pode e deve ter sua política em relação à inclusão digital, mas precisa incluir nessa política o entusiasmo de grupos e mesmo indivíduos (geralmente professores) em busca de soluções para o problema.
Sobre o entusiasmo dos professores, não falta. Basta lembrar que um dos maiores eventos da área de letras no Brasil é de professores reunidos num congresso sobre ensino de leitura, inclusive digitalizada.
Sobre iniciativas na área e respeito às diferenças sociais, basta lembrar de telecentros dedicados desde a favelas do Rio de Janeiro até a comunidades de pescadores de Florianópolis.
Eu trabalho com isso no Texto Livre, outras pessoas trabalham em outros projetos... Já ouvi falar de um portal para divulgar esse tipo de iniciativa (nem sei se foi pra frente), alguém sabe sobre isso?
Podemos criar um espaço aqui mesmo, na Underlinux, ou junto à Associação de Leitura do Brasil. Para trocar idéias, para divulgar os trabalhos, para mostrar nosso potencial, que a meu ver será muito mais poderoso se for levado como força conjunta do que em estado de competição.Posted 17-02-2008 at 08:23 by acris
Updated 17-02-2008 at 08:28 by acris -
Posted 21-02-2008 at 08:41 by acris
Updated 21-02-2008 at 08:46 by acris -
Bom, após ler tanta coisa e observar como o texto digital se desdobra em tantos outros, uma discussão que o texto em sala de aula não alcança, tenho que fazer minhas observações:
-Primeiro, é que sou obrigado a fazê-lo, já que a autora do texto que devo comentar é minha professora e como ela nos impôs essa tarefa, portanto, o fato das aulas serem virtuais não significa que os alunos façam o que bem entenderem: o grau de liberdade da aula virtual é relativo;
-Segundo, é que o texto da Cris comenta uma pesquisa ao qual não tive acesso e não tenho a referência. Apesar disso, fui levado a ler os comentários, portanto, a ler muito mais do que faria numa aula presencial e a despender muito mais tempo nesse interagir e, em compensação, a ter acesso a muito mais informação (filtrada pela ótica e experiência dos colegas) que teria numa situação presencial;
-Terceiro, é que tenho a sensação, que fico sobrecarregado, muitas vezes, pelo excesso de informação e de ficar olhando para essa tela iluminada, o que cansa sobremaneira as vistas. O mal uso dessa máquina pode causar problemas de saúde dos mais variados tipos: saber como usá-lo, ter uma disciplina saudável, é indispensável, como conteúdo da aula que ensine informática ou use o computador como ferramenta;
-Quarto, é que há uma tendência de diminuir a importância do professor no processo de aprendizado do aluno, sim. As iniciativas do governo têm investido em ações que procuram financiar iniciativas que dispensam a tutela do docente, colocando-o a margem do processo de educação, como um mero executor dessas macro-políticas educacionais e até, muitas vezes, nem isso, porque, embora ineficientes, são, a princípio, mais visíveis e rendem mais votos, além de obter o apoio do comércio que lucra com a compra massiva de equipamento que, do contrário, viraria sucata, pois não são poucos que vêm com defeito de fábrica, já que o controle de qualidade por parte do usuário, praticamente não existe.
O resultado desse tipo acéfalo de iniciativa educacional (cuja mediação do professor foi dispensada), e mediado por um dispositivo informático capenga e perneta, pode ter sido a causa da ineficiência detectado pela pesquisa e não pela inadequação da metodologia tradicional de ensino quando transposta para o meio informático (não linearidade etc). Assim, seja no meio virtual ou no presencial, a mediação do professor e sua valorização, bem como, sua preparação e remuneração, são fator preponderante para a eficiência de bom projeto educacional, seja no meio virtual ou no presencial. É nisso que o governo tem pecado.
-Quinto, melhor seria que colocassem a disposição da escola crédito para financiar projetos dos professores e da comunidade escolar como se faz com a Cultura, onde abrem-se editais de incentivo para produções de teatro, dança, música, etc. Isso dá mais resultado que comprar uma "porrada" de laptops no topa tudo por dinheiro.Posted 08-04-2008 at 16:26 by woodson
-
Ops, como deixei faltar os links?
AGÊNCIA FAPESP: http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=8403
Artigo na íntegra: http://www.scielo.br/scielo.php?scri...m=iso&tlng=pttPosted 14-04-2008 at 12:22 by acris







