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Diario de classe do Texto Livre: letras? porque?

Para introduzir o conceito do que é o Texto Livre e o porquê da parceria com a Underlinux, cabem algumas considerações sobre a escrita e os gêneros textuais relacionados à produção de documentos os mais variados sobre software livre: desde as conversas informais nos chats e fóruns até as notícias e tutoriais oficialmente publicados


a escrita

Uma questão discutida há muito tempo no campo das letras, mas que passa despercebida em quase todas as outras áreas embora também lhes diga respeito, é a questão do gênero textual. O que é isso? O gênero é o que distingue, por exemplo, o texto de uma notícia na televisão de uma notícia publicada em um jornal de papel. Os recursos disponíveis em cada gênero e, talvez principalmente, sua finalidade e função são os fatores que fazem com que a linguagem utilizada em um deles não seja adequada no outro. Exemplos: você não usa a mesma linguagem para responder uma questão de história numa prova e para escrever um bilhete a um amigo. Também não usa a mesma linguagem ao dirigir-se a uma criança de 3 anos e ao dirigir-se a um guarda para pedir uma informação. No entanto, aprendemos a escrever escrevendo. A internet trouxe algumas modificações na nossa relação com a escrita. Tempos atrás aprendíamos a escrever exclusivamente para resolver questões formais, hoje precisamos saber escrever até mesmo para namorar - porque o/a namorado/a vive em outra cidade, estado ou país ou mesmo porque nesse momento está numa lan house e não a seu lado. Ou seja: a escrita, que era vista como o meio formal de comunicação por excelência, passou a ser também informal e tão informal quanto a fala, dependendo da situação. Há quem diga que isso é o fim da boa escrita, da escrita de qualidade. Será?

a língua muda

Repito: a língua muda. Sempre muda. Ninguém mais escreve poemas como Camões... sem desfazer em nada esse poeta, reconhecido pela literatura, devo dizer que "ainda bem", porque ele usava uma linguagem que não se usa mais, se os poemas devem ser lidos, devem ser lidos por nós. Socorro! a internet vai entao acabar com as palavras! Vamos esquecer os acentos e eu vou falar com vc... Ora! Sem escândalos. A palavra você é um excelente exemplo de mudança linguística: quem de vocês escreve vosmecê? Opa! Que língua é essa? Português mesmo, mas de um tempo atrás...
A língua muda mas continuamos tendo funções e contextos determinando diferentes formas de escrita. O Texto Livre fundamenta-se nisso e começou a ser gestado no dia em que revisei um tutorial de CMS em que li: "vc", "naum", 'cara", "pq" dentre outras pérolas. No msn não seriam pérolas, seriam palavras normais. Já num tutorial...

especialistas

Como esperar, no entanto, que pessoas, cujo único contato real e efetivo com a escrita seja o webchat, escrevam um artigo sem essas derrapagens na linguagem? Seria o mesmo que pedir a um usuário de Windows que corrija um bug do KDE. Ou seja: a documentação de software livre precisa de especialistas da linguagem. Com uma linguagem padronizada que respeite a questão do gênero, essa documentação será capaz de atingir um número muito maior de usuários com muito maior eficácia. O Texto Livre traz para o seio do Software Livre justamente esses especialistas. Eles (elas, principalmente elas) vão pegar no seu pé por traduzir "fluxbox, gnome, and KDE" para "fluxbox, gnome, e KDE" simplesmente porque em português não se usa vírgula antes do "e" - o que pode parecer um exagero a muitos - mas elas também vão evitar que você, por descuido ou desconhecimento, escreva "ameaçei".

As três forças do Texto Livre

Esse breve texto discutiu uma das questões cruciais do Texto Livre: a linguagem. Embora seja o motivo da parceria profícua com a Underlinux, não é a única questão em jogo. O Texto Livre tem como 3 principais objetivos, todos amalgamados de tal forma que um não caminha sem o outro:

a) dar suporte à documentação em software livre permite aos professores de português criar um espaço real de comunicação pela escrita formal, pois toda comunicação feita no projeto é escrita.

b) com isso, abre-se uma porta de entrada, no meio do software livre, para colaboradores inesperados: pessoas que, sem o projeto, pouco ou nada saberiam sobre software livre e

c) o trabalho de documentação exige dos revisores um aprofundamento técnico que usuários comuns raramente buscam, o que faz dos voluntários do projeto pessoas melhor preparadas para utilizar essas ferramentas e, inclusive, desenvolvê-las, dependendo de seu interesse. Esse fator é preponderante tanto para o universo do software livre quanto para o universo acadêmico, no qual, cada vez mais, o uso e desenvolvimento de novas tecnologias torna-se uma necessidade, inclusive nas letras.

Autor

Equipe do Texto Livre:

Autoria: *AnaCristinaFMatte

Coordenação: *AnaCristinaFMatte


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