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From UnderLinux WikiO que fonética tem a ver com software livre?
Este artigo tem um tom pessoal, por vários motivos, incluindo o fato de ser meu primeiro artigo publicado na Underlinux, à guisa de apresentação. Foi um convite do OgMaciel para escrever para o Planeta Ubuntu Brasil que me fez atentar para o fato aqui descrito. Declinei do convite para fazer o blog porque... well, no time for that, infelizmente. O fato aqui descrito? Heis: 2006 está sendo um ano glorioso para o software livre na UFMG, especialmente na Letras, mas pouca gente sabe disso e eu mesma só percebi muito recentemente. Claro que começar um trabalho com software livre numa faculdade (letras) sem quase nenhuma tradição com o trabalho em tecnologia (exceto por algumas excessões, sem dúvida louváveis), não é um mar de rosas, não sou a primeira a tentar e os resultados ainda são muito incipientes. Mas porque fixar o olhar nos espinhos quando poucas mas exuberantes rosas esperam nosso olhar aqui e ali no horizonte dos fatos? Graças ao uso do software livre, conquistamos alguns espaços importantes este semestre, dentre eles uma defesa de mestrado em março, foco do presente texto: foi a defesa de dissertação de mestrado da aluna Adelma Araújo, em fonética e fonologia (http://www.letras.ufmg.br/poslin/defesas2006.htm#primeiro). A Adelma chegou nas minhas mãos de orientadora já com o mestrado em andamento. Mais especificamente, em final de trajetória, em fase de escrita de dissertação e com o prazo se esgotando. Beleza? Não: que susto! A Adelma, por vários motivos, chegou com uma decisão a tomar: ou concluía uma dissertação mediana e saía rapidamente da universidade com um título na mão, ou coletava um novo corpus e fazia mais uma análise completa (além da que já havia feito até aquele momento) e saía da universidade não só com um título, mas também um trabalho de peso para a comunidade científica. Escolher a segunda alternativa significaria, pelas vias habituais, acrescentar pelo menos um ano de trabalho nos computos finais. Isso porque o trabalho atualmente habitual do pesquisador em fonética acústica consiste em gravar em estúdio um corpus controlado, segmentar manualmente amostras de fala com no mínimo 3000 dos segmentos em foco, etiquetar cada um dos dados com uma análise de ouvido, recolher dos dados manualmente, organizando-os em tabelas e somente então proceder à análise estatística dos dados. Bom, dirá você, então ela não tinha alternativa, pois o prazo estava se esgotando e tínhamos por volta de 6 meses para fazer tudo. Mas eu disse a ela exatamente o contrário: "Adelma, voce pode escolher. Se quiser seguir a segunda alternativa, nós vamos usar a tecnologia para tornar possível essa empreitada. Não será fácil, muito trabalho certamente, mas que é possível, é." Porque eu pude dizer isso com tamanha segurança? Porque eu conhecia a potencialidade de um software livre para análise de fala (Praat: www.praat.org), sabia que era possível programá-lo para trabalhar exatamente aquilo que nos interessava e sabia como adaptar os scripts já existentes e disponíveis para uso livre tendo em vista o objetivo específico da Adelma. Apesar do processo ainda não poder ser totalmente automatizado, o uso dessa ferramenta, conforme minhas experiências individuais indicavam, já poderia acelerar em pelo menos 3 vezes a velocidade de obtenção de dados. Mocinha corajosa ela: aceitou o desafio. Mesmo tendo enfrentado problemas como a falta de um equipamento mais potente e o não acesso ao linux - que nem eu mesma usava na época (início de 2005) embora já tivesse algumas evidências da capacidade superior do linux para rodar esses scripts - o trabalho foi realizado no tempo, e vivemos uma defesa emocionante, de um trabalho brilhante que toda a banca concordou que deveria ser continuado na forma de um doutorado, além de recomendar sua publicação. O Praat foi fundamental para esse resultado. Mas o fato de ser um software livre, criado e mantido por uma comunidade de usuários integrados ao meio acadêmico, é que o tornou uma ferramenta tão poderosa, capaz de adaptar-se às necessidades dos pesquisadores, ao invés da costumeira necessidade dos usuários em adaptar-se às possibilidades que os programas proprietários lhes oferecem. O Praat possui uma interface gráfica (que também é programável, podendo ser adaptada às necessidades do pesquisador) por meio da qual todo o trabalho tradicional pode ser realizado. Com o cursor e funções previamente definidas no menu, além, é claro, de alguma experiência e conhecimento teórico sólido, você consegue obter dados de duração, configuração formântica (qualidade do som, distinção de segmentos lingüísticos), melodia e intensidade para cada segmento de fala que voce deseja analisar. É possível vincular à onda sonora um arquivo de som tabular que delimita a segmentação associando etiquetas a cada segmento. No entanto, se o programa fosse restrito a isso não seria muito diferente de seus concorrentes proprietários, ficando a diferença exclusiva à maleabilidade da interface gráfica. O que distingue o Praat de programas similares é a possibilidade de programar ações repetitivas cujos parâmetros técnicos possam ser previamente definidos e padronizados. O programa vem com um excelente manual de instruções, com forte ênfase na programação, e com uma ferramenta de histórico de comandos que pode ser acessada pela própria janela de programação (o shell do programa). Assim, qualquer ação que será repetida pode ser simulada uma vez e, a partir dessa simulação, o pesquisador consegue saber os comandos básicos para programar a repetição da ação quantas vezes for necessário. Muitos scripts prontos podem ser obtidos na página da lista de discussão do praat (http://uk.groups.yahoo.com/group/praat-users/), os quais tambem podem servir de base para a criação de outros scripts. O Praat usa uma linguagem de alto nível estruturada e com algumas peculiaridades, que não chegam a representar uma barreira a um programador experimentado em virtude da grande quantidade de informações disponível. Outra vantagem importante é a possibilidade, já prevista na arquitetura do programa e em sua linguagem de programação, de vincular-se a outros programas, seja como auxiliar, seja como programa principal de cada tarefa específica, podendo mesmo rodar funções chamadas via linha de comando sem necessidade de abrir a interface gráfica. Finalmente, cabe acrescentar que o programa também permite, além da análise acústica, a síntese, a manipulação e transformação da onda, a aquisição de som (via gravação), bem como conta com ferramentas específicas para, por exemplo, a teoria da otimalidade e trabalhos com redes neurais. O programa possui um potencial muito além daquele que ainda nos foi possível utilizar, e como é aceito pela comunidade internacional de pesquisas em ciências da fala, conta com muitos colaboradores que, além de relatar bugs, muitas vezes sugerem soluções, imediatamente publicadas e incorporadas ao programa pelos desenvolvedores, de modo que quase toda semana é lançada uma nova versão do programa. O trabalho que apresentei no FISL7.0 (http://fisl.softwarelivre.org/7.0/papers/pub/programacao/254) foi resultado dessa experiência com a Adelma, pois o sucesso da empreitada me fez ver o quão necessário era tirar a prova: analisei o desempenho do pesquisador em termos de velocidade de obtenção de dados, comparando o método tradicional (40 segmentos/h) com o método usando scripts, rodados no Windows (216 segmentos/h) e em algumas distribuições linux com gnome e com KDE (de 248 a 266 segmentos/h, incluindo-se a experiência com rede LTSP num terminal com placa de rede 10). A tecnologia não fez a dissertação, quem fez foi a Adelma, mérito dela, mas sem acesso a essa tecnologia livre, esse trabalho jamais teria acontecido. E como em tudo no software livre, mérito de muitos: dos criadores do software, da comunidade que o aprimora com uma rapidez inimaginável no mundo do software proprietário e, não posso deixar de citar, do professor Plínio Barbosa, que durante a supervisão do meu pós-doutorado na UNICAMP me ensinou a programar no Praat e assim aproveitar ao máximo essa maravilhosa ferramenta. É por isso que, se algum de vocês cruzar comigo pelos corredores da UFMG, vão ver, literalmente, que eu vesti a camiseta. [editar] Autor |