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  • O Trabalho Infantil e a Apple

    Recentemente a Apple foi duramente criticada por contratar fábricas que utilizam trabalho infantil ou abusam de seus trabalhadores, mantendo-os em condições de trabalho próximas de regime de escravidão. No ano passado, foram encontradas pelo menos 15 crianças trabalhando nessa companhias, que fabricam os produtos state-of-the-art da Apple. São menores de idade trabalhando em condições sub-humanas para a produção de seus produtos preferidos, como o iPod, o iPhone, e até mesmo os Macbooks e iMacs. Das três fábricas apontadas por terem utilizado mão-de-obra infantil, a empresa de Steve Jobs não informou o nome de nenhuma delas, mas sabe-se que a maioria de seus produtos são montados na China.



    A Apple também possui fábricas trabalhando para a companhia em muitos outros países asiáticos como Taiwan, Cingapura, Filipinas, Malásia, e Tailândia, além das conhecidas na República Tcheca (Europa) e Estados Unidos da América (América do Norte). A empresa também informa que a mão-de-obra infantil encontrada, atualmente não está mais trabalhando nessas fabricas. A companhia também afirma em uma publicação de seu relatório anual, que em cada uma dessas três unidades foi exigida uma revisão de todos os registros de emprego no ano corrente, bem como a análise completa do processo de contratação, para poder esclarecer como pessoas menores de idade conseguiram obter um emprego nessas unidades.


    Relatos Anteriores

    Pelo jeito essa não foi a primeira vez que foram encontrados crianças trabalhando nessas fábricas que prestam serviço para a Apple. A empresa tem sido repetidamente criticada pelo uso de fábricas que abusam da mão-de-obra, em condições de trabalho degradantes. Outro ponto interessante é que somente na semana passada foi descoberto que 62 trabalhadores de uma dessas fábricas que manufatura os produtos da Apple e da Nokia, estavam intoxicados com n-hexano um composto químico altamente tóxico que causa degeneração muscular e perda de visão. A Apple não chegou a comentar sobre os possíveis problemas da planta de produção, que é comandada pela Wintek, na cidade chinesa de Suzhou.

    É interessante destacar que a Wintek anunciou que a maioria dos trabalhadores que foram intoxicados por n-hexano já estão de volta ao trabalho, e apenas alguns ainda permanecem no hospital. A própria companhia justificou o problema dizendo que o composto químico é largamente utilizado por muitas indústrias da área tecnológica, e que o problema ocasionado em sua fábrica aconteceu em áreas onde a ventilação não estava sendo feita de forma efetiva.

    A Apple tem passado por diversos problemas com essas fábricas. E não somente relacionados a trabalho infantil ou escravo. Outro caso estarrecedor aconteceu na Foxconn. A Foxconn é uma empresa Taiwanesa, e é considerada uma das maiores fornecedoras da Apple. No ano passado, um dos empregados da Foxconn cometeu suicídio após ter sido acusado de roubar um protótipo do iPhone. Uma investigação revelou que os membros da segurança da fábrica haviam batido nele, e ele posteriormente, pulou para a morte do 12º andar de seu prédio.

    A Foxconn não é nenhuma empresa pequena. Ela é responsável por comandar um grande número de super-fábricas ao sul da China. Algumas delas empregam mais de 300.000 trabalhadores, e ainda formam cidades auto-suficientes ao seu entorno, contendo bancos, serviços postais, e quadras de basquete. E essa mesma companhia tem sido acusada de explorar seus trabalhadores, em serviços de qualidade sub-humana. A acusação vem da Labor Watch, uma Organização Não-Governamental (ONG), baseada em Nova York. Ela afirma que a Foxconn tem aplicado a seus trabalhadores condições inumanas de trabalho, negando a eles os princípios mais básicos dos direitos humanos.


    A Luta da Apple

    A empresa de Jobs tem admitido que mesmo com sua política contra os trabalhos infantil e escravo, 55 das 102 fábricas que prestam serviços para a Apple, estão ignorando uma das regras da empresa, que impede que os trabalhadores trabalhem mais do que 60 horas semanais. A China já viola as orientações das próprias companhias de tecnologia, ignorando o direito de trabalho, que estabelece um máximo de 49 horas semanais para cada trabalhador. Uma das fábricas ainda tinha falsificado de forma repetitiva os registros de seus funcionários, para poderem esconder que estavam utilizando mão-de-obra infantil em sua estrutura de produção, além de explorarem o tempo de trabalho semanal de cada um dos empregados.


    O Problema Não é Somente da Apple

    Sabemos que esse tipo de problema atinge praticamente todas as grandes empresas do setor de tecnologia, em todo o mundo, que utilizam os serviços de fábricas asiáticas para a produção e linha de montagem de seus produtos. Como diz o ditado: "o barato sai caro". Sempre em busca de linhas de produção cada vez mais baratas que atendam ao nível de qualidade de seus produtos, as empresas da área de tecnologia utilizam constantemente fábricas que abusam e exploram de seus trabalhadores, oferecendo condições de trabalho sub-humanas, além de uma remuneração tão baixa que automaticamente condenam essas empresas pelo regime de trabalho escravo imposto.


    O Nerdson.COM também comentou sobre o assunto.

    Para manter a qualidade de seus produtos, terem um preço competitivo no mercado, e ainda por cima, garantirem uma margem de lucro alta, as grandes empresas da área de tecnologia estão sempre buscando mão-de-obra barata nos países "em desenvolvimento". O problema é que qualquer empresa sempre está buscando a maior margem de lucro possível para seus produtos e serviços. Não somente as empresas da área de tecnologia, mas todas as outras empresas que fazem parte da "linha de produção". Diferente da indústria automobilística, as empresas de tecnologia (em sua maioria) não possuem fábricas próprias. E no processo de terceirização para manter a competitividade isso sempre vai acontecer. E quanto mais barato for mão-de-obra contratada, menor a qualidade de serviço dos trabalhadores dessas "empresas terceirizadas".

    Essa é uma verdadeira "sinuca-de-bico". Empresas com o melhor preço degradam os trabalhadores. Se tentar obrigar essas mesmas empresas a seguirem uma política de respeito ao trabalhador, será enganado. Mas se for contratar empresas que oferecem maiores qualidades para seus empregados, o preço final de contratação chaga a ser estratosférico, o que acarreta na inviabilidade de preços competitivos para os produtos colocados no mercado. mas as empresas de tecnologia também não tem demonstrado nenhum interesse em pagar mais caro para um processo de terceirização adequado aos direitos dos trabalhadores,e diminuírem as suas margens de lucro.


    Mudança de Paradigma de Todo o Mercado

    Mas esse impasse parece estar entranhado nessas empresas desde a época que se começou a comercializar produtos de tecnologia no mundo. Presenciamos sempre a comercialização de produtos muito aquém do esperado, com recursos limitados de forma proposital, sem possibilidade de expansão, atualização, ou mesmo padronização com desenvolvimentos futuros. Associado a isso temos o problema do alto consumo de energia versus limitação de funcionalidade. Além de ser "desonesto" com o consumidor, esse tipo de prática tem contribuído para destruir cada vez mais o nosso planeta, devido a captação cada vez maior de matéria-prima para a produção de "tecnologia", e seu constante descarte futuro pela impossibilidade de atualização, ou mesmo compatibilidade com as linhas de produtos futura. Isso sem contar com a falta de uma política séria de reciclagem dessa linha de produto.

    Porém, acredito que tudo isso poderia ser solucionado de uma vez por todas, se as empresas sempre pensassem em criar produtos de "qualidade", com baixo consumo de energia, sempre compatíveis com versões anteriores, serem expansíveis (e não limitados), além de uma política de desenvolvimento de produtos que tenham significado para nossa sociedade, que possuam o intuito de nos ajudar a crescer, sem nos tornar reféns dessa tecnologia (além de incentivar o consumismo compulsivo). Se todos esses fatores fossem levados em consideração, teríamos produtos que respeitassem as pessoas como seres humanos, que pudessem ser atualizados, que se mantivessem sempre compatíveis, que respeitassem o meio-ambiente.

    Mudando os paradigmas não somente dos projetos desenvolvidos pelas empresas, mas também da aplicação de seus produtos finais, toda a cadeia poderia ser reparada. Inclusive o impasse de lucro versus terceirização de mão-de-obra barata. poderíamos resumir a solução desse problema em apenas uma só palavra: consciência.


    Links de Interesse:

    - Apple admits using child labour
    - A Fantástica Fábrica de iPods

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    Sobre o Autor: code

    Administrador e Editor do Portal Under-Linux, desenvolvedor Linux e FOSS para Linux, autor de livros e artigos, atuando na área de Educação Digital e P&D com AI.