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Por que o cidadão consciente deveria optar pelo software livre, sem restrições?

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Recentemente, fui convidado a participar de uma missa em comemoração à morte de São Francisco de Assis, e aos 800 anos do seu carisma, ou seja do seu pedido ao papa Inocêncio III para fundar a ordem dos frades franciscanos, e a autorização deste, em 1209. Na ocasião da missa haveria uma representação teatral dos momentos finais da vida de São Francisco de Assis, bem como de canto gregoriano. Não sou católico, nem tampouco sigo a religião cristã, mas aceitei o convite por dois motivos: primeiro, porque adoro o canto gregoriano e a oportunidade de ouvi-lo dentro de uma igreja franciscana me pareceu fabulosa. E foi. Segundo, porque este é um santo católico sui generis. Dos santos católicos, sua doutrina é a que mais se aproxima das doutrinas religiosas orientais e do panteísmo, ao considerar animais, vegetais e minerais como irmãos, pois provém da mesma fonte, Deus. São Francisco de Assis foi, quem sabe, o primeiro militante ecológico de que temos notícia, isso no século 13, em plena Idade Média. Na missa, um dos celebrantes leu um sermão no qual, uma das recordações que se fazia aos presentes era a de que “nada nos pertence, tudo vem de Deus e, por isso, deve ser devolvido”, por isso, a doutrina franciscana prega o desapego aos bens materiais. Naquele momento lembrei de um outro fato histórico, ocorrido centenas de anos depois de São Francisco de Assis: a carta de um chefe indígena da etnia Seattle ao presidente dos Estado Unidos da América, em 1854. Nessa época, os EUA estavam em franca expansão para o Oeste. Os brancos Ianques tentavam de todas as maneiras apropriar-se das terras indígenas, comprando-as a preços simbólicos, ou tomando-as e eliminando milhares de índios na empreitada. Nesse episódio, o governo dos EUA tentava convencer ao chefe que vendesse suas terras, pedido que foi respondido da seguinte maneira:





“O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro: o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro (…). Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem deve tratar os animais desta terra como seus irmãos (…). O que é o homem sem os animais? Se os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo. Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a Terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a Terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à Terra, acontecerá aos filhos da Terra. Se os homens cospem no solo estão cuspindo em si mesmos. Isto sabemos: a Terra não pertence ao homem; o homem pertence à Terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não teceu o tecido da vida: ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo. Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos (e o homem branco poderá vir a descobrir um dia): nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível. Ela é o Deus do homem e sua compaixão é igual para o homem branco e para o homem vermelho. A terra lhe é preciosa e feri-la é desprezar o seu Criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo do que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos. Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnados do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam. Onde está a árvore? Desapareceu. Onde está a água? Desapareceu. É o final da vida e o início da sobrevivência. Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece um pouco estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira, cada inseto a zumbir é sagrado na memória e experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho (…). Essa água brilhante que corre nos rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, devem ensinar às crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais. Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão. Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa (…). Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto. Eu não sei. Nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda. Não há lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater de asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece apenas insultar os ouvidos. E o que resta da vida de um homem, se não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.”
O texto tem sua autenticidade questionada, mas ninguém tem dúvidas de que expressa o sentimento dos povos indígenas de qualquer parte do mundo.
Na história da humanidade é difícil encontrar passagens onde a apropriação e a retenção de “bens”, em especial, do conhecimento, foram benéficas para a maioria. Pessoalmente, não me recordo de nenhuma. Ao contrário, essa prática tem beneficiado e enriquecido uns poucos, deixando a maioria pobre e ignorante. A tecnologia é peça fundamental para o desenvolvimento sociedade mas, na verdade, a tecnologia e a inovação são subprodutos do conhecimento. E não só do conhecimento científico, mas de todo tipo de conhecimento.


Na antiga Grécia, os detentores do conhecimento eram os filósofos. Os filósofos conheciam matemática, lógica, astronomia, astrologia, física, química, alquimia, medicina, tecnologia de armas, engenharias, artes, música, poesia, teatro, política e, é claro, filosofia. Entretanto, haviam dois tipos de filósofos. Os do primeiro tipo eram os que discutiam a filosofia em público, com os amigos, com estrangeiros, com o povo. Eram os que criticavam as ações dos governantes, os que propunham soluções e, é claro, os que eram perseguidos e, com frequência, mortos, exilados ou presos. Suas ideias eram discutidas e rediscutidas, conhecimentos de todos os participantes eram agregados e discutidos até descobrir-se falhas em linhas de raciocínio. Quando algo assim era encontrado, as discussões recomeçavam, até chegarem a um consenso de que determinada ideia estaria filosoficamente correta e, portanto, poderia ser disseminada. Essa era a dinâmica dos diálogos de Sócrates. A característica mais marcante deles era que eles discutiam assuntos filosóficos, que englobavam todos as áreas citadas anteriormente, abertamente, ensinando às pessoas e, principalmente, aos jovens. O conhecimento desses filósofos era aberto e disseminado gratuitamente, em praça pública, o “peripatos” que, mais tarde, deu nome à escola peripatética de Aristóteles. Os diálogos de Sócrates, imortalizados nos livros de seu discípulo, Platão, são o exemplo mais marcante desse comportamento.
O segundo tipo de filósofo eram os chamados “sofistas“. Os sofistas eram pessoas com grande conhecimento intelectual e dominavam a arte da retórica, no entanto, sua característica principal era: seu conhecimento era limitado e vendido. As pessoas das classes mais abastadas pagavam caro a esses “profissionais do conhecimento” para que educassem seus filhos. Os embates entre os filósofos e os sofistas eram impressionantes embates de conhecimento, nos quais, quase invariavelmente, os filósofos literalmente “colocavam os sofistas para correr”, porque sua retórica era vencida pelos fatos expostos claramente pelos filósofos. E, como se diz, contra fatos não há argumentos. No entanto, a força política e econômica dos sofistas era consideravelmente maior do que a dos filósofos e, por esse motivo, tinham mais influência nas decisões e mais benesses do estado e da sociedade como um todo.



Era difícil, para uma pessoa do povo compreender as profundas discussões filosóficas desses dois grupos e, infelizmente, os sofistas tinham soluções práticas para problemas pontuais para os que podiam pagar, enquanto os filósofos entendiam que as transformações deveriam ser globais para serem eficientes e duradouras. Outro problema enfrentado peos filósofos era que seu principal objetivo era tornar as pessoas melhores e, para isso, era necessário uma transformação interior. Não bastava ao indivíduo ter o conhecimento disponível. Era necessário interiorizá-lo, o que fatalmente causaria uma transformação no modo desse indivíduo perceber o mundo e as pessoas. O problema é que essa transformação é percebida em atitudes que levam o indivíduo a se preocupar cada vez mais com a sociedade do que consigo mesmo. Esse mesmo conhecimento, quando não interiorizado, leva à pessoa a utilizá-lo em seu próprio favor. Isso significa que, se uma pessoa obtém o conhecimento sem a consciência de que deve utilizá-lo em favor do seu povo, tornar-se-ia egoísta e, um egoísta com poder tornar-se-ia um tirano. Essas teorias ficaram evidentes em duas situações distintas: a primeira foi a experiência de Platão, quando foi convidado a ser tutor de Dionísio I, tirano de Siracusa, que Platão tencionava instruir nas artes filosóficas e torná-lo um estadista. Falhou e teve de fugir da cidade. A segunda foi quando Aristóteles, discípulo de Platão, tornou-se tutor de Alexandre, filho do rei Felipe II da Macedônia. Apesar de eternamente questionar e contrariar seu mestre, Alexandre interiorizou bem os conhecimentos que Aristóteles lhe transmitiu, tornando-se o rei da Macedônia e, pouco mas tarde, o governante de um vasto império que ia da Grécia e Macedônia até as fronteiras da Índia.




Esses dois casos emblemáticos, demonstram que o mesmo conhecimento, quando utilizado de formas diferentes podem ter efeitos radicalmente opostos. O mesmo emblema encontramos nos registros históricos dos filósofos, da sua contribuição para o desenvolvimento da humanidade e das civilizações que apareceram depois deles. Hoje em dia, não se pode dizer que um sofista tenha tido alguma influência no pensamento de qualquer civilização posterior, mesmo porque, eles quase não deixaram registros (talvez por medo da cópia não autorizada de seus conhecimentos), e quase tudo o que se sabe deles nos chegou por intermédio de seus próprios opositores, os mesmos que difundiam o conhecimento, e que, com seus métodos resgataram-nos da morte histórica, do esquecimento. No entanto, o conhecimento difundido dos filósofos tornou-se a base, ou influenciaram de alguma forma, muitas doutrinas filosóficas, religiosas, do direito, políticas de, praticamente, todas as civilizações posteriores, principalmente do período romano em diante. Com exceção das civilizações pré-colombianas, todas as outras, de alguma forma, receberam influência de suas ideias. Seus textos foram lidos, discutidos, revistos. Novas doutrinas e novos pensamentos surgiram e, novamente, houveram os que se apropriaram do conhecimento e os que preferiram difundi-lo. Novamente, também, os primeiros foram protegidos pelo status quo, e os segundos perseguidos, presos e mortos.
A história é cíclica? As mesmas situações ocorrem de tempos em tempos, mudando apenas o contexto? Hoje, o embate entre os que defendem a propriedade intelectual e a detenção do conhecimento, e os que defendem a liberdade intelectual e a disseminação da cultura e do conhecimento, segue os mesmos padrões dos embates do passado. A luta dos que defendem a liberdade, formalizada em movimentos como o do software livre, contra os “donos do poder”, personificados nas empresas de software proprietário, como a Microsoft, e nas empresas de entretenimento, segue mais ou menos os mesmos padrões das lutas filosóficas, religiosas, ideológicas do passado. Se acreditamos que a história é realmente cíclica, então poderemos supor que o desfecho será o mesmo, com os mesmos resultados e as mesmas baixas. Não estou querendo dizer com isso que haverão mortos e feridos nessa contenda, que tende a durar por longo tempo, mas muitos já foram presos, multados e condenados judicialmente, não entrando no mérito se eles estavam, ou não, violando alguma lei que, por sua vez, são normalmente escritas pelos “donos do poder”. Nem tampouco, estou afirmando que os defensores do conhecimento livre se restringem aos que contribuem para esses movimentos organizados.





Vamos entender isso um pouco mais a fundo: a sensação de liberdade é inerente ao ser humano. As leis não são naturais, mas impostas a cada indivíduo da sociedade. É uma troca que o indivíduo faz: ele sacrifica parte de sua liberdade inerente em troca da vida em sociedade que, por sua vez, torna sua vida mais fácil e mais segura (Thomas Hobbes). Com isso quero dizer que, se não há lei que proíba algo, o sentimento geral é de que esse algo é permitido. Numa sociedade onde o conhecimento é restrito e as leis ocupam centenas de livros, o próprio conhecimento das leis também o é. Pela falta de disseminação desse conhecimento, o cidadão não tem nem o conhecimento do que pode e do que não pode fazer, do que está escrito na lei. Para complicar, a própria lei é ambígua e cheia de falhas. A retórica retorna, hoje, como a principal ferramenta para a determinação da justiça, e não a verdade dos fatos. A tendência de uma sociedade, nessa situação, é a de que o indivíduo sinta-se livre para fazer o que quiser, até que alguém de carne e osso, com cara de poucos amigos e autoridade, lhe diga que não pode, e mais, lhe ameace com sanções se o fizer. Essa é a situação da nossa sociedade brasileira, quiçá do mundo, com relação ao conhecimento.
Essa situação se replica por vários âmbitos, mas vamos nos restringir à questão do direito autoral. Qualquer um faz fotocópias de livros em faculdades, até que alguém diga que não pode. A maioria compra filmes piratas em camelôs. Todos os que têm acesso à internet, de alguma forma fazem, ou já fizeram, o download de conteúdo protegido por direitos autorais, conscientemente ou não, dessa questão legal. E não parará até que interiorize o conhecimento da lei e das consequências, para si e para a sociedade, se ele transgredir essa lei. Segundo um estudo publicado pelo IDGNow!, cerca de 60% dos programas de computador utilizados por pessoas físicas no Brasil, em 2008, era pirata. E essa situação continuará indefinidamente, se o conhecimento não for difundido. Isso é ruim para os detentores de patentes, mas é pior para os defensores da difusão do conhecimento, e muito pior para a sociedade e para as gerações futuras.
É ruim para os detentores de patentes e defensores da apropriação do conhecimento, porque seus lucros serão diminuídos, seus métodos questionados, e a sociedade tenderá a voltar-se contra eles se atitudes mais enérgicas e frequentes acontecerem. Não há como impedirem que seu modelo fracasse, e isso parece ser apenas uma questão de tempo, como a história tem demonstrado. No entanto, como o objetivo principal é o lucro, não o fornecimento e disseminação de tecnologia, é provável que abandonem o modelo, e criem um outro, quando os custos se tornarem altos demais para manterem o negócio lucrativo. É ruim para os defensores da difusão do conhecimento porque deixa a sociedade estagnada, presa e acomodada a um modelo estanque, mas dominante devido à disseminação, ainda que ilegal, de parte do conhecimento proprietário. Momentaneamente, isso é benéfico para os defensores da apropriação do conhecimento, mas essa situação não pode se sustentar indefinidamente, já que o modelo exige prazos de obsolescência planejada cada vez menores de forma a sucatear versões antigas para substituí-las por novas para garantir as margens de lucro. Isso gera montanhas cada vez maiores de lixo tecnológico e um enorme problema ambiental que ninguém, ainda, sabe como resolver. A estagnação, por sua vez, impede a transformação e o avanço do conhecimento. O modelo estanque dominante impede a livre expressão da criatividade, inerente aos jovens, e retarda o desenvolvimento das gerações futuras. O problema ambiental gerado pela obsolescência planejada também será cobrado deles.




Por que os movimentos ditos “livres”, em especial o do software livre, devem ser vistos como movimentos político-ideológicos? Uma das maiores críticas de vários colaboradores do software livre, geralmente os que estão envolvidos em seu desenvolvimento ou na implantação de sistemas, é a excessiva politização e a tentativa de certos indivíduos de tornar a questão ideológica, e não puramente técnica. Esse cisma, em finais da década de 1990, levou à criação de um movimento paralelo chamado de “código aberto”, ou “open source“. Ocorre, no entanto, que aqueles que pensam que a abordagem deveria ser puramente técnica, vêem apenas uma pequena parte de um problema que é imensamente maior. Se o conhecimento deve ser aberto apenas para permitir que seja auditado ou reutilizado por outros, onde colocaremos as montanhas de lixo tecnológico, que a indústria insiste em criar, todos os anos, para garantir que seus lucros cresçam indefinidamente. Isso não é problema do desenvolvedor, já que ele é apenas pago para fazer o que lhe mandam, sem questionar se o mundo onde ele vive está sendo destruído pela própria empresa que lhe paga?
A questão da difusão do conhecimento é uma questão filosófica, política e ideológica, muito mais do que técnica. Antes de sermos desenvolvedores, engenheiros, técnicos, filósofos ou professores, somos todos seres humanos. A cultura de apropriação, posse e consumo está tão impregnada em todos nós, que sequer temos senso crítico de avaliar se o que acreditamos é bom para nós e para nossos filhos, ou não. Simplesmente acreditamos que é bom ter dinheiro, sucesso, o smartphone da moda, a última versão do software mais popular, ou o computador com os recursos tecnológicos de uma nave espacial, mas raramente avaliamos o que isso influi no resto da sociedade. Isso é um problema da “sociedade”, não nosso. A “sociedade”, personificada na figura do “governo”, ou das “organizações” tem de resolvê-lo, como se cada um de nós não fôssemos parte dessa mesma sociedade agonizante. Alguém inventará uma tecnologia milagrosa que nos salvará, pensamos. Raramente pensamos que, com nossas atitudes, podemos fazer o que nos cabe como integrantes dessa sociedade, pensando que, talvez, não tenhamos força suficiente para mudar nada. Além do mais, todo mundo faz igual, todo mundo usa pirata, todo mundo usa o PPT, o XLS e o DOC, é tão cômodo, porque abandonar essa comodidade em favor de uma sociedade melhor e mais justa, uma utopia? Deixemos que nossos filhos e netos resolvam esse “salseiro” que nós criamos.




Quando se utiliza um produto protegido por direitos autorais, aceita-se uma regra implícita que diz mais ou menos o seguinte: “eu, detentor dos direitos autorais do produto, digo que você cliente, comprador, consumidor, poderá utilizá-lo da maneira que eu diga, nas condições que eu diga, pelo prazo que me aprouver e você tem somente o direito de escolher comprá-lo e submeter-se às minhas condições. Os subprodutos gerados por você com esse produto não são exclusivamente seus, mas meus também, e você não pode utilizá-los para si sem minha autorização. Você pode distribuir a sua parte do conhecimento ou subprodutos gerados por esse produto, por você, mas eu definirei o que é seu e o que é meu. Você está sujeito às minhas leis, às minhas normas e à minha vontade unilateral e aceita de bom grado essa condição”. O interessante é que, mesmo que não se tenha pago pelo produto e use uma cópia pirata, a regra continua valendo, porque o usuário ajuda a ampliar a base de apoio e de usuários desse produto, gerando uma demanda por subprodutos derivados dele, perpetuando assim, a influência desse produto na sociedade. Mesmo que um produto não tenha a hegemonia de seu mercado, ele é subproduto de algum outro produto que, na cadeia produtiva, inexoravelmente terminará ou terá forte influência de algum produto hegemônico. Raríssimos são os casos de produtos que não têm a influência de algum tipo de produto proprietário em sua cadeia de produção.
Por outro lado, quando se utiliza um produto cujo conceito foi desenvolvido sob a égide da colaboração mútua e da liberdade do conhecimento, aceita-se tão somente uma regra explícita: “você pode fazer o que quiser, desde que mantenha essa mesma regra nos produtos que desenvolver”. Isso tem implicações enormes: um software pode ser desenvolvido, mas nunca terá códigos maliciosos porque tem toda uma comunidade de “auditores” controlando o seu desenvolvimento. Um produto pode ser fabricado por qualquer pessoa que queira e as peças de reposição serão abundantes e sempre compatíveis com os demais componentes. Um carro poderia ser fabricado em casa a custos baixíssimos, com toda tecnologia disponível, com peças disponíveis na loja de peças da esquina. Remédios não seriam caríssimos e restritos a poucos sortudos que podem pagar, pois poderiam ser fabricados por qualquer laboratório, em qualquer lugar do mundo. Alimentos poderiam ser mais saudáveis, já que a sociedade poderia auditar, facilmente, as receitas e fórmulas dos fabricantes de alimentos.
O movimento do software livre e o desenvolvimento colaborativo, ambos baseados na difusão do conhecimento, têm mostrado, ao longo dos últimos trinta anos, que podem tornar-se a base de transformações na nossa sociedade. Mas, a próxima pergunta, com certeza, seria: mas como alguém sobreviveria se simplesmente divulgasse sua ideia ao mundo, sem a menor perspectiva de retorno do seu esforço intelectual? A resposta não é tão complexa como parece. A que é, normalmente, dada pelas empresas de software livre é que eles não lucram com o produto, em si, mas com os serviços agregados a esse produto. Do ponto de vista de um software, isso parece aceitável, mas, e do ponto de vista de um fabricante de veículos, por exemplo? Que vantagens ele teria em abrir suas tecnologias? A primeira vantagem seria que ele não teria mais a responsabilidade total na gestão de pós-venda. Uma vez que a tecnologia disponível poderia ser utilizada por qualquer um, então, qualquer um poderia produzir as peças de seus veículos, qualquer um poderia se tornar um especialista nessa tecnologia e qualquer um poderia oferecer serviços de suporte. A questão da garantia deveria, então ser totalmente revista. Os preços tenderiam a baixar e o conhecimento da manutenção e da construção dos veículos seria pulverizada a milhões de técnicos ao redor do mundo, pequenas montadoras surgiriam, mas os interesses das grandes montadoras poderiam ser resguardados pela capacidade de investimento em plantas maiores e com mais recursos tecnológicos, devido à capacidade de investimento. As vendas seriam regionalizadas, mas a empresa perderia mercado? Pouco provável. A estrutura para se construir uma linha de produção automobilística é extremamente cara e os prazos de retorno do investimento são bastante grandes. A qualidade dos produtos não fabricados pelas montadoras seriam de responsabilidade dos próprios montadores menores, auditados pela sociedade através de órgãos reguladores. As melhorias tecnológicas seriam difundidas para todos os outros montadores, fazendo com que carros melhores surgissem através da discussão das ideias dos projetistas com toda a sociedade. Os próprios veículos poderiam ser construídos com materiais mais duráveis e “atualizados” com as novas tecnologias que fossem surgindo da rede de colaboradores. Os materiais substituídos poderiam ser projetados para serem reciclados. Uma enorme rede de pequenas empresas surgiria em torno dessa tecnologia, gerando empregos e dividindo responsabilidades. Os enormes custos com advogados seriam consideravelmente diminuídos, isso só para dizer algumas poucas vantagens. A estrutura criada para a proteção dos direitos autorais é extremamente cara e ineficiente. Enfim, as possibilidades são limitadas apenas à nossa imaginação.
Neste artigo, procurei mostrar porque o conceito ideológico e político que o software livre e do “produto livre” tem não deve ser abandonado e, ao contrário, deve ser potencializado. A abrangência do conceito vai além do software, e muito além das consequências que podemos imaginar. O movimento do software livre é apenas a ponta de um imenso iceberg, que poderá transformar toda a nossa sociedade. Cada um de nós pode ajudar nessa mudança, na sua medida, “internalizando” o conhecimento que nos está disponível. Nossa atitude mostrará o quanto aceitamos e aplicamos esse conhecimento. Atitudes com foco no bem comum fatalmente nos levarão à utilização e disseminação do software livre e suas ideias. Atitudes com foco no nosso próprio umbigo, nos levarão a utilizar o que nos for mais conveniente. Não estou pregando a morte dos produtos proprietários ou o fechamento das empresas capitalistas. Estou propondo apenas uma pequena mudança de atitude de cada cidadão, com relação ao que julga ser melhor para si, para seus familiares e para sua sociedade. Estou sugerindo uma pequena reflexão que não tem custo, mas, cujo resultado pode mudar muita coisa. Estou procurando demonstrar como nós, pessoas comuns, podemos fazer alguma coisa para melhorar nosso mundo, contribuindo para resolver os graves problemas que o afetam hoje, cuja conta será paga por nossos filhos e netos.

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