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paulocwb2003

Liberdade pra quê?

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Quando se fala de software livre, hardware livre e outras “coisas livres” que vemos internet afora, fico pensando no que consistiria, exatamente, essa tão falada “liberdade”. Se entrarmos em algum fórum relacionado ao GNU/Linux, ou outros relacionados ao software livre (SL), com frequência, encontraremos as definições de liberdade descritas no site da Fundação para o Software Livre – Free Software Foundation (www.fsf.org), e traduzido livremente como “liberdade para usar, estudar, modificar, copiar e distribuir” um determinado software.
Confesso que, às vezes, tenho dificuldade de compreender, nos detalhes, o que isso significaria para, por exemplo, meu pai, que não entende nada de programação e mal sabe navegar na internet e conversar no MSN, numa cidadezinha no interior do Paraná. Meu pai não tem interesse em estudar, modificar ou distribuir nenhum software. Usar, com certeza, talvez copiar uma coisa ou outra. O que significaria essa “liberdade” para um usuário de computador, longe de ser um “nerd” ou “micreiro”?
Um bom começo seria pesquisar o que a filosofia nos diz sobre o assunto. No entanto, não pretendo aprofundar nisso, limitando-me apenas a sugerir a leitura dos autores relacionados nesta página.
Eu, particularmente, gosto de uma definição adotada por Montesquieu: “A liberdade consiste em fazer tudo o que se deve querer e em jamais ser coagido a fazer o que não se deve querer”. De onde se conclui que, deve-se ter conhecimento e discernimento para saber o que se deve querer, e também para saber quando se está sendo coagido a fazer o que não se deve.
Embora pareça que eu esteja complicando muito a questão, o ponto é simples: não há liberdade sem conhecimento. Conhecimento vem da educação e da experiência. Se uma pessoa não possui o conhecimento necessário para decidir entre um software livre e um proprietário, será levada pelas circunstâncias e pela corrente de opiniões mais popular, pensando, equivocadamente, que está fazendo o quer, embora esteja fazendo o que certos departamentos de marketing de algumas empresas querem. É a famosa “a voz do povo é a voz de deus”.
Por que meu pai deveria escolher um software livre, ao invés de um proprietário (pirata ou não), se essa questão não faz parte do seu leque de conhecimentos? A comodidade se traveste de liberdade e o leva a uma escravidão velada. Aí diz-se que ele, livremente, escolheu o que melhor atendia às suas necessidades. No entanto, ele nem sabe dizer, com alguma exatidão, quais são as suas necessidades, uma vez que a tecnologia de computadores não surgiu para ele como uma necessidade, mas foi empurrada pela sociedade e pelas circunstâncias, gerando nele a falsa sensação de que ele “necessita” de um computador, de um software, de internet banda larga, etc. Isso é conhecido no marketing como “geração de demanda”, ou, “como fazer com que as pessoas pensem que precisam dos nossos produtos”.
Em tempos onde um senhor de idade, nos confins do interior do Brasil, sem conhecimento de informática pode, de uma hora para outra, tornar-se um criminoso da pior espécie, só porque baixou um joguinho ou um programa qualquer que precisava pra fazer alguma coisa, é bom colocarmos as barbas de molho. Neste caso, a “liberdade” começa a tornar-se mais clara e ter algum sentido. Meu pai poderia, por exemplo, utilizar e copiar qualquer programa livre, sem o risco de ser processado por pirataria e ser obrigado a pagar milhões de dólares como esta senhora. Ele também poderia escolher entre dezenas, talvez centenas, de versões do mesmo software, cada uma para uma necessidade diferente, como se escolhesse uma marca de arroz no supermercado, como acontece hoje com as distribuições do GNU/Linux, ou com certos programas. Ele também poderia ter mais segurança quando fosse utilizar esses programas já que, como o código é aberto, ele pode ser auditado por qualquer pessoa que tenha conhecimento de programação. Dessa maneira, pode-se verificar não só as funcionalidades e erros, mas também as intensões do programador que o desenvolveu. Softwares maliciosos não teriam vez porque não fariam parte da lista de programas reconhecidamente isentos pelas comunidades SL do mundo.
Atualmente, milhões de pessoas utilizam software proprietário, a maioria pirata, porque, segundo elas, elas escolheram assim. A realidade, no entanto, é que:
1 – A necessidade de se possuir um computador e vários softwares para fazê-lo funcionar não é delas, mas foi interiorizada nelas por grandes corporações.
2 – É inegável a contribuição que a informática e a internet trouxeram para a humanidade, no entanto, o controle delas pelas grandes corporações tem um único objetivo: lucros a qualquer custo (desde que o custo seja dos outros).
3 – Essas milhões de pessoas não escolheram. Elas foram escolhidas pelas grandes corporações de informática. Muito poucas pessoas podem dizer com sinceridade: “eu escolhi usar o Microsoft Windows Vista porque fiz uma avaliação das minhas necessidades e das funcionalidades que cada Sistema Operacional para computadores pode oferecer atualmente, e cheguei à conclusão de que este sistema é o melhor para mim”. Na imensa maioria dos casos, as pessoas escolhem porque é “pratico”, “fácil de usar” e “não exige muito conhecimento”.
Curiosamente, a “liberdade” que as pessoas sentem ao utilizarem esse tipo de software é bastante duvidosa, entretanto, ninguém se dá conta disso. Por que duvidosa? Bem, vejamos:
O MsWindows além de ser extremamente difundido em função de quase duas décadas de domínio do mercado, nele, qualquer pessoa, mais ou menos familiarizada, consegue resolver os problemas mais básicos. No entanto isso só acontece porque o sistema é permissivo ao extremo. Tão permissivo que não se preocupa em ensinar seu usuário. O sistema foi desenvolvido para fazer o que o dono quer, sem questionamentos, nem alertas se alguma solicitação dele levar a potenciais riscos.
Além disso, a Microsoft tem uma prática de “viciar” o usuário do seu sistema operacional. Isso significa que a empresa não tem a menor preocupação com a pirataria do seu software, desde que isso a mantenha na hegemonia do mercado de software. Na prática, ela faz vista grossa à pirataria mas, ao mesmo tempo, deixa os usuários das cópias piratas sem as principais atualizações de segurança. E no que isso afeta a liberdade do meu pai, no interior do Paraná? Meu pai vive formatando sua máquina. Reclama que é lenta, dá problemas toda hora e ele passa mais tempo tentando consertar coisas do que fazendo o que deveria: peças de artesanato no tear de mão que ele faz para ganhar um “troquinho” extra. Ele fica à mercê de pragas que se disseminam pela internet afora porque não tem a menor consideração da Microsoft, já que usa Windows piratão. Ele tem sua privacidade violada sem saber, porque não tem o conhecimento necessário para se defender das pragas (como a grande maioria das pessoas), e pior, nem sabe que está sendo vítima dessas pragas. Ele tem seu computador sequestrado por essas mesmas pragas, que se torna um “zumbi” para a efetivação de atos criminosos por terceiros. Enfim, ele é uma vítima porque é “ensinado” a usar o Windows, mas não tem acesso a conhecimentos e ferramentas que permitam com que ele esteja seguro no ambiente perigoso que é a internet. Por fim, ele perde dinheiro e tempo precioso para consertar os estragos que as instabilidades e as falhas de segurança do software proprietário da Microsoft. Ele e os vários milhões que estão na mesma situação dele.
Mas não saí do vício porque “aprendeu” assim. Ou foi “ensinado” assim.
O software livre tem o desafio de quebrar esse paradigma. É por isso que a “liberdade” oferecida por ele é mais substancial, embora difícil de ser reconhecida. É difícil porque a comodidade que as pessoas têm hoje com os softwares piratas proprietários coloca uma cortina de fumaça sobre os efeitos colaterais dessa “livre escolha”. É como tomar remédio falsificado só porque é mais barato e tem uma caixa igual ao original, achando que vai curar sua doença e não vai ter efeitos adversos: é loucura! Você tomaria? Então pense nisso quando “escolher” utilizar um software proprietário pirata.
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Comentários

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  1. Avatar de Jokerman
    Sou usuário de Linux há muitos anos e há muitos anos leio discursos tendenciosos e romanticos sobre software livre. Esse não é excessão. Além do mais não vejo razão prá tanto ódio contra a Micro$oft sendo que é ela quem está ensinando muito desenvolvedor Linux a criar interfaces amigáveis para usuários finais que não tem intimidade com informática. E não foi por que a Micro$oft criou monopólio que ela engoliu o mercado, mas porque ela criou um jeito fácil de usar o computador. A IBM, por exemplo, sempre teve essa oportunidade e nunca soube aproveitar o filão. Gostar de Linux é uma coisa. Cuspir no prato que come é outra.
  2. Avatar de Não Registrado
    Excelente comentário de Jokerman. O Linux está espalhado por aí com suas trocentas distros e ainda não aprendeu o básico ou seja, ser simples. Tirando grandes empresas como Mandriva e RedHat que começam a ver além do mantra, a maioria insiste em querer ser um Linux puro (?) com todas as suas dificuldades inerentes, mas mantendo o Copiar para não morrer.
    Está na hora do Linux crescer. Deixar de ser criança.
  3. Avatar de fbugnon
    Esse Jokerman só pode ser um brincalhão...

    1- Que a Microsoft esteja "ensinando muito desenvolvedor Linux a criar interfaces amigáveis" é fato absolutamente novo para mim. Aonde a gente se inscreve no curso?

    2- "Jeito fácil de usar o computador" é algo sempre um tanto quanto subjetivo. Mas quem assistiu, por exemplo, "Piratas do Vale do Silicio", sabe que o monopólio da MS deve-se muito menos à sua "interface amigável" (diga-se de passagem: copiada da Apple) que às suas práticas comerciais bastante questionáveis moral e éticamente - para dizer o mínimo.

    3- Independentemente das razões pelas quais a MS se encontra presente ainda hoje em mais de 90% dos computadores pessoais, seja por mérito ou não, o fato é que esse monopólio não é benéfico para ninguém, nem para o setor de software, nem para o de hardware, nem para os governos e muito menos para os consumidores. Esse, me parece, o foco do artigo.
  4. Avatar de Não Registrado
    Eu gostei do artigo. Não achei romântico, como o Jokeman disse. O software livre não é questão de romanticismo, mas este modelo trás benefícios práticos e achei que o artigo expõe isso muito bem, sem ser xiita.

    Parabéns!
  5. Avatar de PEdroArthurJEdi
    Bom, vamos usar um pouco aqui a liberdade de raciocínio.

    @Jokerman

    A µ$oft é a empresa que mais se utiliza de práticas questionáveis no mundo. Você tentou argumentar, a "µ$oft criou um jeito fácil de usar o computador". Todos que tem um conhecimento mínimo de história dos principais player do mercada do informática, sabe que isso é, e continua sendo, uma grande mentira. Desde o princípio, a µ$oft se dedica a cópia de ideias. As primeiras delas, o mouse e a GUI baseada em eventos: invenções da Apple e da Xerox, respectivamente. Logo em seguida, tentou copiar o modelo UNIX de ver o mundo através do Xenix. Copiou suítes de escritório, softwares gráficos... A lista é extensa.

    E cara, me desculpe, mas a µ$oft vem, ultimamente, copiando muitas interfaces criadas no mundo Free/Open Source. O Aero, do Janelas Vista, por exemplo. Se você é mesmo usuário de distros Linux e se interessa por interfaces gráficas sofisticadas, você deve saber que o Aero não passa de uma cópia das melhores inovações presentes no Gnome, KDE e Compiz-Fusion.

    Cuspir no prato que comeu? Quem fez isso?

    @Usuário não registrado

    Você não é da área de informática/computação, né mesmo? O Linux é um núcleo de sistema operacional. Não é tarefa dele ser amigável ou prover ferramentas intuitivas. Essa tarefa é dada ao que chamamos no mundo dos sistemas operacionais de shell, a camada que se comunica com o usuário. Infelizmente, você e a maioria confundem os termos núcleo e shell, devido principalmente ao uso errôneo desses termos por parte da µ$oft e seus evangelizadores.

    Acho que o que você quis dizer é que as distros precisam dar mais ênfase na usabilidade de suas interfaces gráficas, ou não?


    @paulocwb2003

    Você disse em seu texto que não sabe onde as quatro liberdades se encaixam no cotidiano de pessoas leigas e não ligadas a área da informática/computação. Cara, eu tenho um argumento simples. Veja, se você é um usuário de software livre, e precisa de uma nova funcionalidade, pode pedir diretamente aos desenvolvedores essa nova funcionalidade. Caso seja algo de acordo com o projeto em questão, os desenvolvedores estarão mais que dispostos a ajudar e receber o feedback. Caso esses estejam ocupados, você sempre poderá contratar uma pessoa qualificada para produzir essa nova funcionalidade. Ou seja, você não está preso a esperar que a empresa que produz o software esteja disposta a desenvolver a funcionalidade e lhe vender (acho que o termo mais apropriado seria emprestar) por um novo (valor) absurdo. Vai na µ$oft e diz que está precisando de recurso X na suíte office deles.

    No âmbito social, costumo dizer que só teremos evolução tecnológica se associarmos essa ao Software Livre. Como dito por uma socióloga que não me recordo o nome: "Inclusão Social consiste em dar ao cidadão a capacidade de interagir e interferir na sociedade que está inserido (incluso)". Dado esse conceito, a inclusão digital, não seria, então, "dar ao cidadão a capacidade de interagir e interferir com as tecnologias presentes no seu cotidiano"? Na minha opinião, sim. Portanto, não existe outra forma de provermos essa capacidade aos cidadão se não for com o uso de tecnologias livres e padrões abertos. Essa é a única maneira para que um cidadão possa participar ativamente no desenvolvimento das tecnologias. Então, enquanto a sociedade estiver presa aos padrões e tenologias proprietárias, as pessoas continuarão meros zumbis adestrados em tarefas específicas e repetitivas, sempre dependendo da mediocridade das ferramentas e interesses econômicos que as cercam.

    Valeu pelo texto... Até a próxima.
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